domingo, 20 de setembro de 2020
10/08/2020

"Me senti como um filho que ficou fora muito tempo”, diz homem que procurou pai por 40 anos


Por meio da Defensoria Pública, Waldir Alves ingressou com uma ação de reconhecimento de paternidade

A estatística não é nova, mas ainda assusta: R$ 5,5 milhões de crianças e adolescentes no Brasil não têm o nome do pai no registro de nascimento. O Censo Escolar realizado pelo Conselho Nacional de Justiça, embora tenha sido divulgado em 2013, não deixa de ser um retrato atual do  Brasil, que convive há décadas (quiçá séculos) com outra epidemia severa: o abandono paterno. Nesse contexto, a Defensoria Pública do Estado da Paraíba (DPE-PB) é uma porta de esperança para mães e filhos que desejam reverter essa situação, como é o caso do porteiro Waldir Alves Carneiro.

Aos 47 anos, 40 deles em busca do pai, Waldir aguarda uma confirmação que pode dar a ele uma das maiores felicidades da sua vida. Ele procurou a Defensoria Pública para uma ação de investigação de paternidade e agora aguarda o resultado do exame de DNA. O teste, contudo, é apenas uma formalidade da qual ele faz questão, porque o mais importante dessa história, ele já tem: o reconhecimento e o amor paterno que sempre fizeram falta ao longo de toda a sua vida.

Waldir conta que durante muitos anos achou que seu pai fosse outro homem. Esse susposto pai nunca o reconheceu e cortou relações com a mãe ainda na gravidez. “Durante todos esses anos, ela dizia que este senhor era o meu pai e eu fiquei procurando por ele, mas como ela não dizia o nome da mãe dele, era muito difícil encontar”, conta.

Ao engravidar de Waldir, sua mãe tinha apenas 13 anos. Na época, ela se envolvolveu com um homem mais velho, mas teve vergonha de admitir o romance. Ao engravidar, passou a dizer que o filho era de um namorado da época, que jamais assumiu a gravidez e rompeu a relação. Apenas há alguns poucos anos, uma tia de Waldir, já bastante doente, convenceu sua mãe a contá-lo a história real. Então ele ficou sabendo que o seu verdadeiro pai, na verdade, não sabia da sua existência. “Ele desconfiou, na época, mas minha mãe conta que negou e ele seguiu a vida dele”, explicou.

Ao admitir a identidade do pai, a mãe de Waldir também facilitou a busca, informando alguns dados sobre ele, como o nome da mãe.  

Foi então que ele começou uma nova jornada em busca do pai. “Quando eu descobri que a família era de Sertãozinho, procurei a rádio da cidade. Contei minha história ao locutor, que contou a uma pessoa da cidade que conhecia todo mundo. Pelas informações repassadas, ele achou que podia ser o Miguel que conhecia e foi conversar com ele”, narrou Waldir.

Para sua surpresa, alguns dias depois, recebeu um telefone: “Uma pessoa me ligou, perguntou da minha história, bateu algumas informações. Eu achava que estava falando com o homem da rádio, desde que já era ele, meu pai. Ele me recebeu muito bem, e já foi chamando para me conhecer pessoalmente”, contou.

Miguel José da Silva confirma a versão: “Eu tive o maior prazer de conhecer ele e nenhuma tristeza por saber que posso ser pai de mais um filho. Aceitei fazer o exame e estamos aguardando o resultado. Eu tenho seis filhos e eles também aceitaram bem, até porque aconteceu antes deles nascerem”, contou.

EXAME DE PATERNIDADE – Ao localizar o pai, Waldir procurou a Defensoria Pública para ingressar com uma ação de investigação de paternidade. Ele e o pai se submeteram ao exame de DNA, que foi feito de forma gratuita e consensual. Na atual fase do processo, eles aguardam o resultado do exame de DNA, realizado em março. De acordo com a subcoordenadora do Núcleo de Atendimento de João Pessoa, a defensora pública Risalba Cavalcanti, o teste ainda não foi entregue em razão da suspensão das atividades no fórum por causa da pandemia, mas deve ser devolvido tão logo as atividades retornem.

DIA DOS PAIS – O ressentimento de Waldir, hoje, é não passar o Dia dos Pais com Miguel em razão das medidas de prevenção ao contágio pelo novo coronavírus. “Tudo isso aconteceu antes da pandemia. Tivemos um único encontro, para nos conhecer, mas eu vou dizer com sinceridade que eu me senti como um filho que ficou fora muito tempo. Fui muito bem recebido por ele e pelos seus filhos. Passamos o dia juntos e eu sinto como se tivesse recebido em um só dia o afago de pai que eu não recebi em toda a minha vida”, confessou.

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Texto: Larissa Claro

Fonte: Ascom DPE-PB

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